quarta-feira, 9 de maio de 2012

Homilia. "TE DEUM" DE AÇÃO DE GRAÇAS PELO FINAL DO ANO de 1978. João Paulo II


"TE DEUM" DE AÇÃO DE GRAÇAS PELO FINAL DO ANO
NA IGREJA DEDICADA AO SANTÍSSIMO NOME DE JESUS
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II 

Domingo, 31 de Dezembro de 1978

Queridos Irmãos e Irmãs

Quero, antes de mais, saudar a todos os presentes, romanos e peregrinos vindos para celebrar religiosamente o encerramento do ano de 1978. Dirijo a minha cordial saudação ao Cardeal Vigário, aos irmãos Bispos, aos representantes da Autoridade civil, aos Sacerdotes, Religiosas, Religiosos, sobretudo os da Companhia de Jesus, com o seu Padre-Geral.

1. O domingo na Oitava do Natal do Senhor, o presente domingo, une, na liturgia, a solene memória da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. O nascimento de um filho dá sempre inicio a uma família. O nascimento de Jesus em Belém deu início a esta família única e excepcional na história da humanidade: nela veio ao mundo, cresceu e foi educado o Filho de Deus, concebido e nascido da Virgem-Mãe, e confiado, desde o início, aos cuidados autenticamente paternos de José, carpinteiro de Nazaré, o qual, perante a lei judaica, foi marido de Maria, e perante o Espírito Santo foi Seu digno esposo e foi o tutor, verdadeiramente de modo paterno, do materno mistério da sua Esposa.

A Família de Nazaré, que a Igreja, sobretudo na Liturgia hodierna, apresenta aos olhos de todas as famílias, constitui efectivamente o ponto de referência culminante para a santidade de todas as famílias humanas. A história desta Família está descrita nas páginas do Evangelho de modo muito conciso. Ali nos são dados a conhecer só alguns acontecimentos da sua vida. Contudo, aquilo que conhecemos é suficiente para envolver os momentos fundamentais da vida de cada família, e para fazer sobressair a dimensão a que são chamados todos os homens que vivem a vida familiar: Pais, Mães e Filhos. O Evangelho mostra-nos, com grande clareza, o perfil educativo da família. Voltou para Nazaré e era-lhes submisso (Lc. 3. 51). É bem necessária, por parte das crianças e da geração jovem, esta "submissão", esta obediência, esta prontidão em aceitar os sábios exemplos do comportamento humano da família. Também Jesus estava assim "submetido". E por esta "submissão", por esta prontidão da criança em aceitar os exemplos do comportamento humano, devem também os pais medir o seu próprio comportamento.

Este é o ponto mais delicado da sua responsabilidade de pais, da sua responsabilidade relativamente ao homem, este pequenino que se vai fazendo homem e que lhes foi confiado pelo próprio Deus. Devem ainda ter presente tudo o que aconteceu na vida da Família de Nazaré quando Jesus tinha doze anos: eles educam o próprio filho não só para si mesmos, mas para ele, para as tarefas que mais tarde ele deverá assumir. Jesus, aos doze anos, respondeu a Maria e a José: Não sabíeis que eu devo ocupar-me das coisas de meu Pai? (Lc. 2, 49).

2. A família estão ligados os mais profundos problemas humanos. Ela constitui a comunidade primária, fundamental e insubstituível para o homem. "A família recebeu de Deus a missão de ser a célula primeira e vital da sociedade", afirma o Concílio Vaticano II (Decr. Apostolicam Actuositatem, 11). Disto quer também a Igreja dar especial testemunho durante a Oitava do Natal do Senhor, mediante a celebração da festa da Sagrada Família. Quer lembrar que à família estão ligados os valores fundamentais, que não se podem violar sem incalculáveis prejuízos de natureza moral. Muitas vezes as perspectivas de ordem material e o ponto de vista "económico-social" prevalecem sobre os princípios de moralidade cristã e mesmo só humana. E em tal caso não basta lamentar. E necessário defender estes valores fundamentais com tenacidade e com firmeza, porque a violação deles acarreta incalculáveis prejuízos para a sociedade e, em última análise, para o homem. A experiência das diversas Nações ao longo da história da humanidade, bem como a nossa experiência contemporânea, podem servir de argumento para se reafirmar a dolorosa verdade de que, na esfera fundamental da existência humana, em que é decisivo o papel da família, é fácil destruir os valores essenciais, e é muito difícil reconstruí-los.

De que valores se trata? Se tivéssemos de responder adequadamente a esta pergunta, seria necessário indicar toda a jerarquia e o conjunto dos valores que reciprocamente se definem e condicionam. Para nos exprimirmos, porém, de modo conciso, dizemos tratar-se de dois valores fundamentais que rigorosamente entram no contexto daquilo a que nós chamamos "amor conjugal", O primeiro desses valores é o da pessoa que se exprime na fidelidade absoluta e recíproca até à morte: fidelidade do marido à esposa e da esposa ao marido. A consequência desta afirmação do valor da pessoa, que se exprime na recíproca relação entre marido e esposa, deve ser também o respeito pelo valor pessoal da nova vida, isto é, da criança, desde o primeiro momento da sua concepção

A Igreja não poderá nunca dispensar-se da obrigação de tutelar estes dois valores fundamentais, ligados e vocação da família. A protecção destes valores foi confiada à Igreja por Cristo, de modo a não deixar lugar a dúvidas. Ao mesmo tempo, a evidência — humanamente compreendida — destes valores, faz com que a Igreja, defendendo-os, se veja a si mesma como porta-voz da autêntica dignidade do homem: do bem da pessoa, da família, das Nações. Embora respeitando a todos os que pensam de outro modo, é muito difícil reconhecer, do ponto de vista objectivo e imparcial, que se comporte à medida da verdadeira dignidade humana quem atraiçoa a fidelidade matrimonial, ou quem permite que se aniquile e se destrua a vida concebida no seio materno. Por consequência, não se pode afirmar que os programas que sugerem, facilitam ou admitem tal comportamento sirvam o bem objectivo do homem, o bem moral, e contribuam para tornar a vida humana verdadeiramente mais humana, verdadeiramente mais digna do homem; não se pode dizer que eles sirvam para a construção de uma sociedade melhor.

3. Este domingo é também o último dia do ano de 1978. Reunimo-nos aqui, nesta liturgia, para dar graças a Deus por todo o bem que Ele nos concedeu e permitiu que nós fizéssemos durante o ano passado, e para pedir o Seu perdão por tudo o que, sendo contrário ao bem, é também contrário à Sua santa Vontade. Permiti que, neste agradecimento e neste pedido de perdão, me sirva ainda do critério da família, desta vez porém, no sentido mais vasto. Deus é Pai, e por isso o critério de família tem esta dimensão; abrange todas as comunidades humanas, as sociedades, as Nações, os Países; abrange a Igreja e a humanidade.

Concluindo assim este ano, demos graças a Deus por tudo quanto contribui para que os homens — nas diversas esperas da existência terrena — se tornem ainda mais "família", isto é, mais irmãos e mais irmãs, que têm em comum o único Pai. Ao mesmo tempo, peçamos perdão por tudo o que é contrário à comum fraternidade dos homens, por tudo o que destrói a unidade da família humana, por tudo o que a ameaça e se lhe opõe.

Assim, tendo sempre diante dos olhos o meu grande Predecessor Paulo VI e o muito querido Papa João Paulo I, eu, sucessor deles, neste ano da morte de ambos, digo, hoje: "Pai nosso que estás no céu, aceita-nos neste último dia do ano de 1978 em Cristo Jesus, Teu Eterno Filho, e n'Ele orienta-nos para o futuro. Para o futuro que Tu mesmo desejas, Deus do Amor, Deus da Verdade, Deus da Vida!".

Com esta oração nos lábios, eu, sucessor dos dois Pontífices falecidos neste ano, atravesso, juntamente convosco, a fronteira que dentro de algumas horas separará o ano 1978 do ano 1979.

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